TsT44. 2021.
Obituário
♦ Alfonso Herranz Loncán
Em memória de Jordi Nadal Oller
Panorâmicas
♦ Ana Cardoso de Matos, Domingo Cuéllar, Aurora Martínez-Corral e Hugo Silveira Pereira (coordenadores)
Apresentação
♦ Antoni González Moreno-Navarro
Como devo restaurar o património (incluindo o industrial)
Resumo:
O autor faz uma breve passagem pelo rápido processo de sensibilização do mundo da cultura espanhola para a importância que os testemunhos materiais deixados no nosso território pela industrialização poderiam ter para o conhecimento histórico e o aumento do património monumental do país, com especial referência aos edifícios construídos para esse fim ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX. Um processo cujos primórdios coincidem com os do caminho do país rumo à democracia e que tem como um dos seus marcos a salvação in extremis de um importante edifício industrial em Terrassa (Barcelona) e a sua posterior reutilização como museu. Em seguida, analisa-se o surgimento e o enraizamento no nosso contexto do conceito de Património Industrial no início da década de 1980 e o papel que este património desempenhará ao longo da «década prodigiosa» que o país viverá e, em particular, a restauração monumental. A partir das suas participações no debate profissional que se desenrolou na altura, o autor expõe as suas divergências em relação a algumas teses predominantes e defende que, na sua opinião, a conservação e restauração desse património não requerem uma metodologia específica, distinta daquela que deve ser aplicada ao conjunto do património cultural construído. Em seguida, expõe o método de trabalho que criou a partir de 1985 para orientar todas as intervenções do Serviço de Monumentos mais antigo de Espanha, que dirigiu entre 1981 e 2008. Para concluir, expõe e comenta algumas especificidades do Património Industrial no que diz respeito à sua restauração e reutilização, e cita uma obra realizada na Catalunha no final do século passado que considera exemplar.
♦ Beatriz Mugayar Kühl
Património industrial: a necessidade de diálogo entre disciplinas, a restauração e a arquitetura
Resumo:
Este texto aborda temas teóricos e metodológicos relacionados com a conservação de bens ligados ao processo de industrialização. Discute-se a integração disciplinar para tratar de temas de arqueologia e património industrial, para depois analisar questões de método e, finalmente, discutir aspetos da restauração e o papel da arquitetura no âmbito da articulação de várias disciplinas. O objetivo é chamar a atenção para a necessidade de discutir o método e refletir sobre os instrumentos da restauração para abordar o património industrial na atualidade, mobilizando os preceitos teóricos de forma consciente para enfrentar as questões renovadas que surgem na prática. Os bens culturais, incluindo os ligados ao processo de industrialização, ancoram os indivíduos e os grupos sociais no tempo e no espaço; tratá-los de forma imprudente resulta na deformação de elementos portadores de conhecimento e de aspetos memoriais e simbólicos, o que pode gerar problemas tanto para os indivíduos como para a comunidade, evidenciando a necessidade de agir de forma fundamentada.
♦ José Manuel Lopes Cordeiro
Algumas questões sobre o inventário do património industrial ferroviário
Resumo:
O artigo centrar-se-á em três aspetos relacionados com a elaboração de inventários de bens ferroviários, destacando, desde já, o que, neste sentido, várias organizações internacionais, como a TICCIH e o ICOMOS, têm vindo a realizar através de cartas patrimoniais. O primeiro aspeto abordará o inventário como forma de gestão do património ferroviário, analisando a atividade de duas instituições que têm vindo a desenvolver vários projetos de estudo, inventário e salvaguarda do património ferroviário: o Projeto «Memória Ferroviária» e o IPHAN, particularmente as iniciativas que este último empreendeu para realizar o inventário da extinta «Rede Ferroviária Federal». O segundo aspeto abordará os inventários como forma de preservar o património ferroviário, procurando sintetizar a experiência histórica que, neste contexto, se concretiza em diversas cartas patrimoniais, como a Carta de Atenas, a Carta de Veneza e a Recomendação de Nairobi. Por fim, será apresentado um breve roteiro metodológico para o inventário do património ferroviário, baseado nas recomendações da Carta de Burra, que tem sido apontada como um documento a seguir no que diz respeito à intervenção no património ferroviário.
♦ Magda de Avelar Pinheiro
Estratégias e preservação do património industrial e ferroviário: coexistência e conflito entre patrimónios
Resumo:
Neste artigo, começamos por destacar a ambiguidade da palavra património e as dificuldades que isso coloca para o inventário do património, nomeadamente industrial e ferroviário. Centrar-nos-emos no caso de Lisboa e das suas estações ferroviárias. Descreveremos o percurso seguido em Portugal até ao inventário do património ferroviário e à sua proteção. Por fim, voltaremos à questão da polissemia da palavra e à criação da empresa Património IP.
Dossiê
♦ Breno Borges
Ferrovias Proposta teórico-metodológica para a avaliação de bens culturais ferroviários
Resumo:
Este artigo é o resultado de uma investigação em curso que parte do pressuposto apontado por Coulls (1999) de que o universo ferroviário possui características próprias que o diferenciam do património cultural «comum», pelo que deve ter critérios específicos. A autenticidade, a integridade e a importância cultural são noções que orientam a conservação dos bens culturais em todo o mundo, apesar da sua difícil compreensão e aplicabilidade. Assim, o texto propõe, através de uma interpretação contemporânea do património, uma leitura indissociável destas três noções, partindo da premissa de Lira (2020) de que estas se relacionam diretamente com os atributos do bem cultural. Parte da hipótese de que os atributos são a essência da atribuição de valores que dão sentido aos bens culturais. Com o objetivo de ajudar na compreensão dos atributos ferroviários, o artigo tem uma abordagem teórico-metodológica e, através de uma reflexão sobre a literatura, propõe aspetos específicos que contribuirão para a identificação dos atributos ferroviários e, assim, fornecerão uma ferramenta que ajude na leitura das características particulares dos caminhos-de-ferro e, consequentemente, na patrimonialização destes bens culturais.
♦ Romero de Oliveira
O caminho-de-ferro como problema de estudo multidisciplinar: uma proposta de revisão crítica histórica e estudo do valor patrimonial do caminho-de-ferro (São Paulo, Brasil)
Resumo:
Com a privatização da rede ferroviária brasileira, entre 1992 e 1998, uma série de ações públicas e sociais destacou a preservação dos bens ferroviários. A legislação de liquidação da empresa ferroviária (2007) também exigia a identificação e a custódia dos ativos ferroviários históricos. Neste contexto, desenvolvemos várias investigações sobre a identificação e gestão de ativos ferroviários no estado de São Paulo. O projeto de investigação (de 2019 a 2021) sob a nossa coordenação tem como objetivo testar novas metodologias de registo, reavaliar as diretrizes de conservação e os diferentes instrumentos de ativação sensorial no património industrial, a partir de perspetivas teórico-metodológicas multi e interdisciplinares. Assim, parte-se de vários entendimentos disciplinares para abordar diferentes objetivos em relação aos bens e locais ferroviários: identificação, correlação, aplicação de novas tecnologias, instrumentos de proteção e políticas públicas. Este artigo pretende detalhar os critérios teóricos e metodológicos adotados, bem como os resultados obtidos até ao momento.
♦ Domingo Cuéllar e Aurora Martínez-Corral
Metodologia e prática para um inventário de habitações ferroviárias de construção recente em Espanha (1939-1990)
Resumo:
A realização de inventários é o principal mandato das diferentes cartas e recomendações dos organismos nacionais e internacionais preocupados com a preservação do património cultural. Neste contexto, este artigo propõe uma metodologia e prática para a realização de um inventário das habitações ferroviárias construídas em Espanha durante a segunda metade do século XX. O tema escolhido justifica-se pela razoável disponibilidade de fontes, pouco estudadas em muitos casos, bem como pela escassez de investigações desta envergadura no conjunto da historiografia ferroviária espanhola, e ainda pela relevância social do tema.
O registo sistemático de dados tem o duplo objetivo de dispor de informação ordenada sobre o tema de estudo, neste caso, a habitação, e também de facilitar a análise dessa informação para encontrar padrões, singularidades e elementos de interesse no estudo geral do tema, de modo a ajudar numa qualificação e avaliação adequadas da sua relevância patrimonial. A isto devemos acrescentar um terceiro objetivo, ao qual os investigadores sociais nem sempre se têm mostrado favoráveis, que é o de manter a informação acessível em qualquer momento, facilitar a recuperação dos dados e partilhar os resultados com outros investigadores para que estes possam ser melhorados, corrigidos e ampliados.
♦ Jorge Magaz
Contribuições do inventário do património ferroviário para a conceptualização de um sistema territorial de património mineiro-industrial nas regiões de El Bierzo e Laciana
Resumo:
Apresentam-se as reflexões realizadas por ocasião do trabalho de inventariação patrimonial do legado ferroviário das regiões de El Bierzo e Laciana (León, Espanha), composto pelos troços locais da linha de bitola ibérica Palencia – A Coruña e da linha de bitola métrica Ponferrada-Villablino. Explica-se a metodologia desenvolvida, orientada para definir uma base de dados detalhada na qual registar os diferentes elementos constitutivos da infraestrutura integrada numa paisagem industrial-mineira, concretizar a sua origem e grau de transformação, caracterizar a sua situação atual e documentar as propostas de reutilização patrimonial. Oferece uma análise evolutiva da instalação e fornece dados úteis para fases posteriores de seleção e proteção jurídica ou planeamento. O trabalho explica a estratégia de pesquisa e organização da informação, as fontes utilizadas, e desenvolve a estruturação dos conteúdos apresentada em duas vertentes: o inventário de bens materiais e imateriais identificados no troço estudado, e uma amostra dos tipos de edifícios existentes ao longo da linha.
Dossiê: Parte II: Estratégias de gestão
♦ Shraddha Bhatawadekar
Compreender o significado cultural do património ferroviário vivo: Necessidade de novas abordagens
Resumo:
O património ferroviário tem um caráter único. Embora os locais de interesse ferroviário tenham sido marcos industriais e culturais, muitos continuam em uso. A sua natureza evolutiva molda a sua importância, um aspeto que tem sido pouco explorado na sua gestão. São necessárias abordagens especiais para compreender o «significado cultural» do património ferroviário vivo e para gerir a mudança e a continuidade que o caracterizam. Isto também põe em causa a forma como certas noções de património cultural, como a autenticidade, se relacionam com os locais do património ferroviário vivo, nos quais a função, a tecnologia e a segurança são primordiais.
Tomando como exemplo a estação de Chhatrapati Shivaji Maharaj, em Mumbai, parte do património mundial da UNESCO, o texto examina como se deve compreender a importância cultural de um local à luz da sua natureza viva. São descritos os limites das práticas atuais de conservação e sugeridas outras práticas sustentáveis para a sua conservação e gestão, aplicáveis à gestão de outros locais ferroviários na Índia.
♦ Fernanda de Lima Lourencetti
A reutilização do património ferroviário no estado de São Paulo: uma metodologia para o seu inventário
Resumo:
Na década de 1950, grande parte dos complexos ferroviários paulistas passou a sofrer mutações espaciais devido ao desenvolvimento da tecnologia, da sociedade e da economia, resultando na desativação de inúmeros edifícios. A implementação de projetos de revitalização urbana e reutilização das suas antigas infraestruturas ganhou destaque na década de 1970. Neste contexto, Araraquara viu o seu complexo ferroviário parcialmente desativado; apesar de a sua estação ter recebido uma nova utilização em 2008, muitos dos seus edifícios foram negligenciados. Atualmente, os carris que atravessam a cidade estão em vias de desativação total, o que colocará Araraquara perante o desafio de preservar e reutilizar o seu património ferroviário edificado. Assim, este artigo tem como objetivo contribuir para casos como este, que necessitem de um planeamento de estratégias de intervenção e reconversão. Para tal, será apresentada uma metodologia proposta para o inventário de exemplos de reutilização existentes no estado de São Paulo (Brasil).
♦ Ramón Méndez
O museu educa. Metodologia para o diagnóstico da relação entre as escolas e os museus ferroviários
Resumo:
As visitas escolares aos museus ferroviários são frequentes, mas esta continuidade não suscitou interesse académico. Com o objetivo de melhorar esta situação, apresenta-se a metodologia utilizada para o diagnóstico da realidade educativa do Museu Ferroviário de Madrid, explicando-se e apresentando-se a abordagem de trabalho, os instrumentos e as atividades desenvolvidas durante a investigação, tendo em conta as facilidades, os problemas e as alternativas encontradas no processo.
O objetivo é promover um modelo de investigação comum e viável para sistematizar a investigação sobre as visitas escolares e, assim, conhecer melhor a realidade educativa dos museus em geral e a relação entre as escolas e os museus ferroviários em particular.
♦ Alberto Salcedo
Arte contemporânea e património industrial na área metropolitana de Bilbau. Uma combinação necessária
Resumo:
A área metropolitana de Bilbau, no País Basco (Espanha), foi, entre os séculos XIX e XX, um dos epicentros da industrialização no sul da Europa. A partir da crise do petróleo em 1973 e das subsequentes reconversões industriais empreendidas na década de 80 do século passado, iniciou-se um declínio que provocou o encerramento de grande parte do seu tecido industrial e a obsolescência da sua importante rede ferroviária de mercadorias. Este naufrágio de um sistema socioeconómico baseado nas indústrias pesadas provocou uma verdadeira catarse. A deriva para uma nova etapa pós-industrial implicou, além de uma transformação socioeconómica em que se reforça o setor terciário, liderado pelo turismo, a hotelaria e as indústrias culturais, uma mutação urbana e paisagística de primeira ordem. Para facilitar uma transição rápida entre épocas, procede-se a uma demolição massiva das instalações industriais, portuárias e ferroviárias obsoletas, amparada por uma política institucional de tabula rasa, sem um processo reflexivo e ignorando as recomendações dos peritos técnicos na matéria consultados. Em suma, não existe uma aposta institucional na proteção, valorização e divulgação do rico e heterogéneo património industrial basco.
A partir deste problema de investigação, forja-se a tese de doutoramento aqui apresentada. A hipótese sugerida é que a arte pode influenciar uma mudança social e política na proteção, valorização e gestão do património industrial e ferroviário, sensibilizando a sociedade para a sua fragilidade e valor. Por um lado, analisa-se a situação real atual do património industrial basco com base nos conceitos: obsolescência industrial, gestão, transformação urbano-paisagística, reutilização do património e revitalização da memória. Por outro lado, são analisadas 6 obras artísticas que intervêm no património industrial e ferroviário. A tese exposta neste artigo pretende contribuir para revitalizar a memória coletiva, reivindicar o valor patrimonial e histórico dos vestígios industriais, como testemunhos de uma época crucial na história basca, influenciar as políticas da sua gestão e socializar a problemática da obsolescência do património industrial, através da arte.
Crónica
Críticas
♦ Shraddha Bhatawadekar
Carroll L. V. Meeks, A Estação Ferroviária. Uma História da Arquitetura
♦ Ramón Méndez
Freeman Tilden, A interpretação do nosso património
♦ Jorge Magaz
Julián Sobrino, Arquitetura industrial em Espanha, 1830-1990
♦ Fernanda L. Lourencetti
Beatriz M. Kühl, Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo: reflexões sobre a sua preservação
♦ Aurora Martínez-Corral
Antoni González Moreno-Navarro, A restauração objetiva
♦ Hugo S. Pereira
Dianne Drummond, Crewe: Cidade Ferroviária, Empresa e Pessoas, 1840-1914
♦ Mónica Ferrari
Jorge Tartarini, Arquitetura Ferroviária
♦ José Luis de los Reyes
Philipp Blom, O colecionador apaixonado