VIII Congresso de História Ferroviária, Lisboa 2021
Sessão I: Novas perspetivas sobre os caminhos-de-ferro portugueses
Organizadores: Ana Cardoso de Matos (Universidade de Évora); Hugo Silva Pereira (Universidade Nova de Lisboa); e Magda Pinheiro (ISCTE-IUL)
A investigação sobre a história dos caminhos-de-ferro portugueses registou um grande avanço nas últimas décadas, graças aos esforços académicos desenvolvidos durante a década de 1980. Mais recentemente, as linhas construídas ou financiadas por agentes portugueses nas colónias nacionais em África e na Ásia também têm merecido o interesse da Academia. No entanto, devido a uma maior disponibilidade de novos acervos documentais (textos, estatísticas, iconográficos, etc.) e ao desenvolvimento de novos conceitos e abordagens metodológicas (algumas das quais abrangem disciplinas diferentes), é possível rever o conhecimento histórico anterior e produzir novos conhecimentos sobre os aspetos que não são abordados na história do caminho-de-ferro português. Esta sessão destina-se especificamente a receber propostas para analisar os processos não estudados da história do caminho-de-ferro em Portugal e no seu antigo império ou para reinterpretar temas anteriormente abordados por outros autores.
Sessão II: Fronteira e caminho-de-ferro
Organizadores: Rafael Barquín (UNED); Carlos Larrinaga (Universidade de Granada); e Pedro Pablo Ortúñez (Universidade de Valladolid)
A construção da rede ferroviária na Europa foi realizada a partir de abordagens nacionais. Imediatamente após o surgimento das primeiras linhas, os Estados assumiram um papel protagonista no financiamento e na conceção das redes. Mas logo a conceção do caminho-de-ferro como um meio de transporte de âmbito nacional revelou-se inadequada. Os mercados nacionais de fatores e bens eram incapazes de dar resposta às crescentes necessidades económicas dos países. Para além da fronteira, abriam-se novas oportunidades de negócio. O envolvimento internacional de grandes grupos económicos, como os Rothschild, favorecia a procura de sinergias entre as redes nacionais. Por outro lado, muitas regiões fronteiriças eram especialmente dinâmicas graças ao desenvolvimento de certas indústrias, de modo que a fronteira era, mais do que uma barreira, um motivo adicional para alargar a rede ferroviária.
Nesta sessão, apelamos à apresentação de comunicações que tenham como tema central o desenho das redes ferroviárias internacionais e/ou o intercâmbio transfronteiriço de mercadorias e serviços por via férrea. Exemplos do tipo de trabalhos que nos interessam são: 1.º estudos sobre projetos e realizações ferroviárias; 2.º estudos sobre a atuação dos grandes interesses capitalistas no desenho das redes internacionais. 3.º estudos sobre as consequências que as linhas ferroviárias transfronteiriças tiveram nos setores económicos nacionais ou no desenvolvimento das regiões fronteiriças. 4.º estudos sobre as consequências que as alterações de fronteira tiveram no transporte ferroviário e nas economias nacionais. 5.º em geral, qualquer investigação que aborde a problemática existente devido à interação entre o caminho-de-ferro e a fronteira. O âmbito preferencial de investigação é a Europa, mas estamos abertos a considerar investigações de outros continentes.
Sessão III: As viagens de gestores e técnicos: uma forma de transferência de conhecimento
Organizadores: Tomás Martínez Vara (Universidade Complutense de Madrid) e Miguel Muñoz Rubio
Dada a dependência que a ferrovia ibérica apresentava, era habitual, desde a sua própria origem, que os gestores e técnicos das empresas locais realizassem viagens aos países que lideravam o desenvolvimento deste meio de transporte, a fim de conhecer os sistemas organizacionais e as tecnologias mais avançadas e, assim, poderem tomar as suas próprias decisões.
Apesar da importância que estas viagens tiveram, uma vez que muitas delas deram origem a decisões muito significativas, como a escolha das locomotivas das primeiras ferrovias ou a implementação dos sistemas de Organização Científica do Trabalho nas oficinas, a historiografia ibérica praticamente não abordou o assunto.
O objetivo desta sessão é aprofundar esta forma de transferência de conhecimento, convidando à apresentação de comunicações sobre casos concretos de viagens que abordem: os seus motivos; a sua descrição; o conhecimento recolhido, geralmente em cadernos ou relatórios; e as suas aplicações práticas, caso as tenha tido.
Sessão IV: O transporte terrestre de mercadorias: complementaridade e concorrência entre o caminho-de-ferro e a estrada (séculos XIX-XXI)
Organizador: José Luis Hernández Marco (Universidade do País Basco/EHU, aposentado)
Exceto nas regiões geográficas com infraestruturas fluviais navegáveis, até ao advento do caminho-de-ferro, as mercadorias só podiam ser transportadas por terra exclusivamente às costas de pessoas e animais ou carregadas em veículos puxados por bois, cavalos ou mulas. Embora os caminhos-de-ferro tenham dominado desde muito cedo o transporte de mercadorias (e passageiros) a média e longa distância, de cidade em cidade, de região em região e do porto para o interior, o crescimento das trocas comerciais com a industrialização e as características das redes ferroviárias aumentaram a necessidade de transporte de pessoas e mercadorias entre as estações e as suas zonas de influência urbanas, semiurbanas e rurais, ou seja, a curta distância, pelo que a procura e a oferta desse transporte tradicional aumentaram enormemente. Com o desenvolvimento da tração elétrica, os elétricos urbanos e o crescimento dos caminhos-de-ferro de proximidade e suburbanos terão um impacto significativo nos modos tradicionais de transporte de pessoas nesse âmbito urbano. Desde antes da Primeira Guerra Mundial em algumas regiões americanas e, após esta, em grande parte da Europa, o desenvolvimento inicial do automóvel e, com ele, dos veículos ligeiros e pesados para o transporte de pessoas e mercadorias, começou a competir com sucesso no mercado do transporte de curta distância. Após a Segunda Guerra Mundial, os avanços tecnológicos na indústria automóvel e as melhorias nos projetos e pavimentos das estradas e autoestradas significaram que o automóvel se tornaria o meio terrestre predominante para o transporte de mercadorias, especialmente as de maior valor unitário ou de natureza perecível, também em média e longa distância. No entanto, o crescimento espetacular da utilização de contentores, caixas/cisterna e reboques completos, desde o início da normalização na década de 1960, tanto no transporte nacional como internacional de mercadorias, juntamente com o desenvolvimento da logística, abriu novas possibilidades de complementaridade ao transporte intermodal de mercadorias.
O objetivo da sessão é a apresentação e discussão de comunicações sobre a coexistência do caminho-de-ferro com os outros modos terrestres de transporte de mercadorias, desde o século XIX até aos dias de hoje, que abordem a história comparada internacional, tema de interesse tanto para historiadores do caminho-de-ferro e dos transportes como para especialistas de diversas disciplinas.
Sessão V: Caminhos-de-ferro e cidade. Impacto das infraestruturas ferroviárias no desenvolvimento urbano das cidades da Península Ibérica
Organizadores: Jordi Martí Henneberg (Universidade de Lleida) e Maria Ana Bernardo (Universidade de Évora)
As questões que estruturam esta sessão serão as seguintes:
Como é que as cidades se desenvolveram e o ambiente urbano se transformou desde que as estações ferroviárias entraram em funcionamento? Que particularidades podemos identificar em cada uma delas em relação ao conjunto de estudos de caso? Consequentemente, o objetivo desta sessão é determinar as circunstâncias em que o caminho-de-ferro contribuiu para transformar o espaço urbano nas cidades da Península Ibérica. Serão também discutidos outros países que possamos utilizar como referência.
A rede ferroviária garantiu uma rápida interligação entre as principais cidades ibéricas a partir da segunda metade do século XIX, um período em que as cidades começavam a superar o isolamento das muralhas medievais. Consequentemente, tanto a localização da estação como o traçado da linha foram fundamentais para o desenvolvimento urbano posterior. As fontes e as metodologias utilizadas para este tipo de análise podem ser variadas e devem permitir abordagens a partir de diferentes disciplinas: história económica, urbanismo, arquitetura, engenharia civil, geografia ou humanidades digitais, entre outras.
Para facilitar este tipo de estudos e a sua posterior divulgação, serão especialmente bem-vindas as comunicações que incluam a digitalização de documentos históricos, uma vez que estes irão fornecer material que permita interpretar a relação entre o espaço urbano e as estações, concebidas como as novas portas da cidade a partir do século XIX.
Sessão VI: Jovens historiadores: novas abordagens à história dos caminhos-de-ferro ibero-americanos
Organizadores: Magda Pinheiro (ISCTE-IUL) e Javier Vidal Olivares (Universidade de Alicante)
Esta proposta oferece um espaço aberto à discussão de novas investigações sobre o caminho-de-ferro, o sistema ferroviário e os seus diferentes impactos, desenvolvidas por jovens historiadores, tanto em Espanha como em Portugal.
Os novos interesses na investigação incluem abordagens conceptuais renovadas; metodologias de investigação e tratamento de dados; novos documentos e/ou o estudo de novas áreas geográficas e âmbitos territoriais.
Entre os novos conceitos, destacam-se as diferentes culturas das instituições técnico-científicas ou sociotécnicas associadas à construção ferroviária. Entre as novas metodologias, sobressaem aquelas que utilizam Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e também as que se dedicam a novos espaços territoriais, como o mundo colonial ou transfronteiriço. Entre os documentos, ganhou destaque o estudo dos mapas, da planimetria ferroviária e o recurso sistemático às imagens como elementos de suporte histórico.
A sessão visa proporcionar um espaço de discussão privilegiado sobre todos estes temas e outros que possam eventualmente ser incluídos no debate sobre a investigação ferroviária renovada, promovido a pedido de investigadores juniores do espaço ibérico.
Sessão VII: Metodologia e ferramentas para um inventário patrimonial
Organizadores: Ana Cardoso de Matos (Universidade de Évora); Domingo Cuéllar (Universidade Rey Juan Carlos); Aurora Martínez-Corral (Universidade Politécnica de Valência); e Hugo Silva Pereira (Universidade Nova de Lisboa)
O património ferroviário (e o industrial, em geral) goza hoje de uma visibilidade que não tinha há alguns anos, o que permitiu que a sua valorização e divulgação estejam na agenda política e social dos nossos países de forma quase permanente. Da mesma forma, museus e outras instituições de conservação deste património proliferam com um sucesso de público e divulgação bastante notável. Tudo isto é uma excelente notícia.
No entanto, consideramos que o trabalho académico de investigação e sistematização do património ferroviário não deve perder importância face à dimensão mediática que a questão do património tem vindo a assumir nos dias de hoje. Acreditamos que é necessário avançar com uma metodologia comum na busca de resultados conclusivos que não sejam condicionados por questões alheias ao processo crítico da investigação social.
Neste sentido, pretendemos convidar especialistas e estudiosos do património ferroviário de Espanha e Portugal para uma das sessões do congresso que se realizará em Lisboa em 2020. Por um lado, pretendemos apresentar a sessão sob a forma de um workshop de debate, que já teve uma sessão preliminar em Entroncamento em 2019, com o objetivo de aperfeiçoar os conteúdos a apresentar no congresso do ano seguinte. Por outro lado, dada a amplitude dos temas a abordar, pretendemos, nesta ocasião, concretizar a linha de trabalho na arquitetura ferroviária menos conhecida, para além dos edifícios de passageiros mais relevantes, como oficinas, cais e armazéns, entre muitas outras tipologias. Não procuramos análises individuais, mas sim estudos globais, quer empresariais quer geográficos, que ajudem a avançar no desenvolvimento de inventários e catálogos.
Encorajamos, portanto, os investigadores interessados a apresentarem propostas de trabalho e de organização do estudo deste património, seja através de classificações clássicas de materiais e utilizações, seja através da sua sistematização, ou ainda com o recurso a novas tecnologias na execução destes trabalhos.
Objetivos
Constituir um grupo aberto, mais ou menos estável, que sistematize a investigação sobre o património ferroviário.
Contribuir para a definição dos conceitos básicos do património ferroviário, bem como para a funcionalidade de cada um dos seus elementos.
Trabalhar na metodologia para a elaboração de modelos de fichas de inventário para um património tão específico como o ferroviário.
Ajudar na elaboração de critérios de conservação.
Explorar áreas de disciplinas relacionadas com o estudo do património, tais como arquitetura, biblioteconomia, estatística, tecnologia e outras, bem como o seu contributo para o mesmo.
Sessão VIII: Geral
Organizadores: Francisco Polo Muriel
O congresso pretende servir de fórum para o debate e a divulgação de novos estudos e investigações sobre História Ferroviária. Para tal, a Sessão Geral reúne as comunicações que, embora cumpram os requisitos de qualidade científica previstos, não podem ser incluídas em nenhuma das sessões anteriores. Nesta ocasião, o Comité Científico aceitou treze propostas de comunicação que abordam temas muito diversos: conceção, construção ou exploração de linhas, tecnologia, apoios públicos, caminhos-de-ferro mineiros, legislação ferroviária e turismo.