Domingo Cuéllar, Aurora Martínez-Corral e Javier Cárcel-Carrasco
: Planos, materiais, locais. Análise da habitação social ferroviária em Espanha, 1939-1989
Editora Área de Inovação e Desenvolvimento, S.L., Valência, 2022
Planos, materiais, locais. Análise da habitação social ferroviária em Espanha, 1939-1989 constitui um primeiro resultado com vocação recapitulativa deste trabalho frutífero, para o qual contaram com a colaboração de Javier Cárcel-Carrasco, engenheiro e especialista em materiais. Os três autores formaram, assim, uma equipa multidisciplinar que, a partir de diferentes perspetivas, empreende um ensaio sobre a política de habitação levada a cabo pela Renfe entre 1941 e 1989.
No primeiro capítulo, Cuéllar, Martínez-Corral e Cárcel-Carrasco elaboram um panorama da situação da habitação operária em Espanha durante o franquismo e as duas primeiras décadas da democracia, o que se afigura fundamental para compreender o contexto histórico em que se desenvolve a ação da empresa ferroviária. Mas, também, abordam nesta primeira secção outras questões substantivas, dada a natureza do tema, como a «patrimonialização» das habitações populares e a metodologia utilizada para construir o próprio ensaio.
A parte central de Planes, materiais, lugares é constituída, tal como o próprio título indica, por três blocos temáticos claramente diferenciados. No segundo capítulo, analisa-se a política aplicada durante este período, utilizando para tal, fundamentalmente, a legislação promulgada para o efeito. No terceiro capítulo, realiza-se um estudo rigoroso da normativa e dos materiais utilizados na construção das habitações. No quarto capítulo, faz-se o mesmo em relação aos locais e às formas utilizadas para a sua edificação. E, por último, o ensaio é coroado com conclusões precisas e os recursos documentais e bibliográficos utilizados.
Dito isto, poderia supor-se que a obra tem um caráter eminentemente descritivo. Mas a verdade é que, pelo contrário, a sua principal contribuição reside no facto de os três autores terem sido capazes de construir, através das dimensões utilizadas – legislação, materialidade e morfologia –, uma interpretação sólida do fenómeno. Porque, de facto, se a escassa historiografia social da Renfe tinha destacado que a empresa pública atribuiu um papel particular à habitação operária no seu programa de bem-estar industrial, fraco e conturbado, só com a realização destes trabalhos – com exceção da referida investigação sobre os bairros operários – e, em particular, com esta monografia, é que se avançou realmente no seu conhecimento. Isto permitiu constatar que a política de habitação desenvolvida pela Renfe foi certamente modesta. Mas, acima de tudo, que não respondeu, durante a fase de construção direta, ao objetivo de resolver, como a empresa não deixou de proclamar, o problema que representava o facto de os trabalhadores não poderem deslocar-se, seguindo as instruções obrigatórias da Renfe, pelo espaço onde se desenvolvia a sua atividade, dada a sua carência de habitação. O seu objetivo principal residia, na verdade, em reforçar um sistema de relações laborais que, enquadrado no seu imaginário inequivocamente classista, situava os trabalhadores no «lugar social» que lhes cabia como tal, o que contribuiria, além disso, para a eliminação do conflito.
Isto fica demonstrado pela configuração e atribuição de tipos de habitação sob um sentido acentuadamente hierárquico. Mas, igualmente, porque a utilização consciente e intencionada de materiais e equipamentos nas piores condições possíveis não se deveu apenas à maximização dos lucros, mas também a um imaginário que entendia que os trabalhadores careciam do direito «natural» de merecerem sequer condições dignas de habitabilidade. Esta política não poderia ser mais classista. (Exemplos disso são o facto de as habitações ferroviárias disporem de um único circuito elétrico interior para alimentar pontos fixos como as tomadas de corrente, ou de carecerem de aquecimento tanto nos locais mais quentes como nos mais frios). Naturalmente, esta opção levou à escolha do local de construção, geralmente fora dos limites das cidades, e à ausência total de equipamentos comuns, com os quais se procurava, obviamente, garantir a sua segregação e tornar inviável que os trabalhadores estabelecessem relações sociais que se traduzissem em redes de solidariedade operária.