Dicionário Biográfico dos Caminhos-de-Ferro Ibéricos
Dicionário biográfico dos caminhos-de-ferro ibéricos 

Francesc Cambó i Batlle

 

 

A principal dificuldade em escrever algumas linhas sobre Francesc Cambó (2/9/1876-30/4/1947) reside precisamente no facto de se tratarem apenas de «algumas linhas». Em seguida, convém salientar a quantidade de biografias existentes sobre esta figura e, em terceiro lugar, o peso que os seus próprios escritos têm na construção da imagem de Cambó. Entre os seus biógrafos, é muito difícil encontrar momentos em que o autor não se tenha deixado levar pela interpretação ou descrição dos factos feita pelo próprio Cambó. É importante ter em conta que existe um Cambó público e outro privado e que o primeiro, na minha opinião, é uma pessoa obcecada pela imagem da Catalunha que a sua vida transmite. Isto dificulta enormemente a redação de uma biografia, como esta, de poucas palavras. A vantagem: é uma figura suficientemente conhecida e biografada. Nasceu em Vergés (Girona) a 2 de setembro de 1876 e faleceu em Buenos Aires a 30 de abril de 1947; provinha de uma família camponesa abastada e estudou Direito e Filosofia na Universidade de Barcelona. O seu catalanismo anti-separatista sempre se destacou. Embora os seus primórdios no Centre Escolar Catalanista remontem a 1893, costuma-se considerar 1901 como o momento em que se consolidou como político, com a vitória eleitoral da Lliga nas eleições gerais de maio e a sua eleição como vereador nas eleições municipais. Em 1907, com a Solidaritat Catalana, obteve pela primeira vez o mandato de deputado, que manteve até à ditadura de Primo de Rivera.

Cambó chegou ao governo graças a Antonio Maura e ao próprio Alfonso XIII, no chamado Governo Nacional, presidido pelo primeiro e que deu origem a...

grandes expectativas, não só entre a população, mas também no próprio Parlamento. A pasta do Fomento era uma pasta complicada, tanto pelas suas competências como, pelo que sabemos, pelo estado de relativo abandono em que se encontrava, com a consequente desconfiança dos funcionários do próprio ministério em relação à ação dos ministros. À luz dos dados disponíveis, com base nas dotações orçamentais atribuídas ao ministério, é possível concluir que essa negligência e ineficácia teriam muito a ver com a escassez dos recursos destinados a cobrir competências tão amplas. O problema da falta de estabilidade também afetou Cambó, de tal forma que não é possível, nem justo, julgá-lo com base num período de tempo tão curto; é verdade que ele confiava, pelo menos nos primeiros meses, até depois do verão, que o governo poderia ter sucesso e, consequentemente, podemos analisar o seu trabalho, os seus projetos e as suas ideias. Neste sentido, podemos afirmar que Cambó revolucionou o ministério, sobretudo devido aos seus princípios de caráter regeneracionista, que o levavam a confiar nas infraestruturas e nas obras públicas como meios eficazes para resolver os problemas do país, mas também para forjar, entre os espanhóis, uma imagem favorável às suas aspirações regionalistas. Depois dele, será mais frequente encontrar nesse cargo alguns ministros com pretensões mais amplas do que a de construir uma ponte para o seu círculo eleitoral, ou seja, ministros que contavam com linhas de ação claras e programadas; outra questão será se lhes faltou tempo, apoio suficiente nas Câmaras, recursos ou um orçamento aprovado no Parlamento. Cambó resumiu, nos seus «Oito meses no Ministério do Fomento», essas linhas de ação que podemos sintetizar da seguinte forma:

1. Promover a produção agrícola. 2. Promover a exploração da riqueza mineral. 3. Incentivar a valorização das quedas de água. 4. Desenvolver e dinamizar a construção de obras públicas, especialmente estradas, portos e obras de regadio. 5. Intensificar e melhorar o sistema de transportes ferroviários. 6. Incentivar as iniciativas privadas.

Basicamente, cada capítulo do livro correspondia a uma destas secções. Muito se escreveu também sobre o alegado intervencionismo estatal de Cambó. Na minha opinião, o intervencionismo de Cambó foi mais um «paternalismo», ou seja, Cambó pretendia que o Estado assumisse os riscos e oferecesse um bom enquadramento ao capital privado, de forma a incentivá-lo a investir. No caso que melhor conheço, o dos caminhos-de-ferro, as empresas privadas nunca se sentiram tão à vontade como quando Cambó permaneceu à frente do ministério, apesar de, aparentemente, estar a estudar o resgate. Se assim foi, deveu-se ao facto de Cambó aceitar a teoria das empresas de aumentar as tarifas ferroviárias como meio de resolver o problema e porque o resgate que Cambó pretendia concluir contemplava uma importante tarefa de remoção de obstáculos a realizar pelo Estado, que entregaria, uma vez concluído o trabalho mais árduo, a sua exploração a empresas privadas em regime de arrendamento: as grandes empresas estavam convencidas, graças ao ministro, de que seriam elas as novas arrendatárias. Em suma, tratava-se mais de uma re-regulamentação do que de uma nacionalização e, além disso, com novas tarifas!

 
Pedro Pablo Ortúñez, TST n.º 2, pp. 110-111.